Carta Branca a Patricia Mourão

Desde sua primeira edição, a Semana dos Realizadores tem tentado mapear e acolher a produção audiovisual brasileira independente voltada para investigações e experimentações de linguagens. Ao longo dos anos, por uma inclinação natural da Semana, as mostras competitivas apresentaram filmes realizados por artistas visuais que circulam, mais frequentemente, pelo espaço de galerias ou de museus. Nas edições mais recentes e, especialmente a última, surgiu o desejo de pensar esse fenônomeno um pouco mais concretamente, de ir em direção a aos filmes no lugar de simplesmente acolher aqueles que são inscritos. Foi assim que convidamos Patrícia Mourão para programar duas sessões com filmes de artistas contemporâneos brasileiros. 

“O primeiro programa, Natureza concreta, reúne trabalhos nos quais o repertório concreto e formalista da arte brasileira do século XX encontra a força matérica, orgânica e incontrolável da natureza em filmes de Daniel Steegmann Magramé, Marcius Galan, Luiz Roque e Thiago Rocha Pitta. No segundo, Documentos da barbárie, Thiago Martins Melo e Miguel Rio Branco deslocam seus trabalhos feitos em outros suportes, pintura do caso de Thiago e fotografia no de Rio Branco, para o vídeo em cantos desesperados, desencatados, violentos e melancólicos sobre a barbárie da história ainda hoje em curso de nossa colonização e exploração humana e fundiária.

Nem todos os artistas que escolhemos apresentar têm o filme ou o vídeo como seu primeiro e principal meio de investigação, alguns são muito mais conhecidos por suas pinturas, esculturas, objetos ou fotografias e encontraram no vídeo uma forma de expandir ou continuar desenvolvendo suas pesquisas nesses outros meios. O critério aqui, no entanto, não foi traçar um panorama ilustrativo e exaustivo de tendências formais e estílisticas do vídeo brasileiro nos anos 2000, nem apontar para questões teórico-verbais formuladas pela história da arte ou outras teorias do momento. O trabalho de curadoria se constituiu como um livre exercício de imaginação e encontro com filmes que gostaríamos de ver deslocados para o espaço da sala escura e projetados na tela de cinema.”

NATUREZA CONCRETA

DOCUMENTOS DA BARBÁRIE